Luis Segundo

O ponto comercial

Dividir um retângulo em 40 partes iguais não é um mall

O erro de projeto que só aparece na hora de alugar — e por que arquiteto bom de residencial não é, necessariamente, arquiteto bom de comercial.

Por Luis Segundo · 23 de agosto de 2026

Recebo com frequência projetos que já estão em obra e travaram na comercialização. O dono não entende o que aconteceu: o terreno é bom, a localização é boa, o investimento saiu. E as lojas não alugam.

Quase sempre, quando abro a planta, o problema está ali.

O caso da academia

Estava analisando um empreendimento nessa situação quando apareceu uma rede de academias interessada no ponto. A localização agradou. O produto, não. O retorno foi direto:

O local me interessa, mas o produto tem que ser totalmente diferente.

Não era capricho. A planta tinha pegado um retângulo e dividido em partes iguais. Dezenas de lojas idênticas, enfileiradas.

Isso não é um mall. É um corredor com portas.

Dividir é fácil. Sustentar a divisão é que é o negócio

Qualquer um divide uma área. O trabalho começa depois: provar que aquela divisão se sustenta.

Uma divisão boa cria ambiência, cria percurso, cria lógica de acesso. Ela responde a perguntas que a planta sozinha não faz:

Um exemplo prático de desenho que funciona: um mall muito comprido, na Godofredo Maciel, ganhou uma praça de alimentação no meio. O efeito foi criar duas frentes que convergem no centro — sinergia entre os dois lados, e vida noturna num empreendimento que, sem isso, esvaziaria às 18h.

O estacionamento não é detalhe

É onde mais se erra por descuido. Entrada, saída, número de vagas, carga e descarga: estacionamento mal resolvido vira problema de tráfego, e problema de tráfego afasta o cliente antes mesmo de ele estacionar.

Vale lembrar que um empreendimento comercial muda uma vizinhança inteira. Não é à toa que se exige estudo de impacto de vizinhança para esse tipo de equipamento.

Por que arquiteto de residencial erra no comercial

Não é falta de talento. É outra disciplina.

No residencial, o projeto responde a quem vai morar. No comercial, responde a quem vai operar — e operação tem regras próprias: fachada, visada, largura de vão, pé-direito, recuo, exigência de âncora. Tudo isso muda o desenho.

Um escritório com experiência comercial faz mais do que desenhar. Analisa a parte legal antes de tudo — e isso está longe de ser burocracia. Fortaleza está entrando em novo plano diretor, e há terrenos que mudaram de zona sem que o proprietário tenha percebido. Descobrir isso depois de projetar é caro.

A triangulação que evita o prejuízo

O desenho bom nasce de três cabeças na mesma mesa: o proprietário, que sabe quanto quer investir e quanto precisa de retorno; o arquiteto, que sabe o que a legislação e o terreno permitem; e o corretor, que está na ponta e sabe o que as marcas exigem para entrar.

É o corretor quem faz a promessa para a grande marca. Se ele não estiver na mesa desde o início, alguém vai prometer o que a planta não entrega — e o preço disso aparece meses depois, com o empreendimento pronto e vazio.

De onde veio este texto. Ele nasceu do episódio 19 do podcast Segundou, com o arquiteto Ricardo Braga, da RI Arquitetura. O episódio completo está no YouTube. As falas citadas foram editadas para leitura, preservando o sentido.
Precisa de ajuda com um ponto comercial?

Concepção, dimensionamento, mix, precificação e locação — de mall a Built to Suit.

Falar comigo no WhatsApp

← Todos os artigos